segunda-feira, 21 de junho de 2010

Campeões Matemáticos (quase) Anônimos no País do Futebol

Organizando alguns papéis antigos, eis que me deparo com um rascunho de texto de minha autoria datado de 8 anos atrás, e nunca publicado. Era uma quarta-feira, 26 de junho de 2002. Estava sendo disputada a Copa do Mundo de Futebol na Coreia e no Japão. Simultaneamente disputava-se também a Olimpíada de Matemática do Cone Sul, aqui no Brasil, mais precisamente em Fortaleza.

Eu era o tutor da equipe brasileira, professor responsável por acompanhar nossos 4 jovens representantes. O segundo e último dia de prova coincidiu com a semifinal da Copa do Mundo de Futebol jogada entre Brasil e Turquia. Mais precisamente, o jogo começava meia hora depois da prova (e esta durava 4 horas).

Assisti à partida de futebol, torcendo muito pelo Brasil, claro, enquanto nossa equipe matemática disputava os pontos tentando esquecer-se do futebol (mas raramente conseguindo). A experiência de dividir minha torcida entre o futebol e a Matemática impulsionou-me a escrever o que hoje sei que era um texto para este Blog, que na época eu não sabia que existiria.

Eis o que escrevi então, transcrito literalmente:

Quarta-feira, 26 de junho de 2002.

O Brasil inteiro torce diante da TV. No Japão, nossa equipe de futebol luta contra os turcos pelo direito de participar de mais uma final de Copa do Mundo. Enquanto isso, muito mais perto, em Fortaleza, nossos campeões da Matemática batalham, quase anonimamente, por outro tipo de glórias.

Os brasileiros pulam de alegria quando seu herói Ronaldo, após entrar na área rodeado de turcos, consegue chutar de bico e a bola, depois de tocar a mão do goleiro, entra suavemente no canto esquerdo. GOL do Brasil!

O país não sabia, mas havia outras razões para comemorar: neste momento todos os nossos quatro campeões já haviam marcado 10 pontos demonstrando a condição necessária e suficiente para um quadrilátero de diagonais perpendiculares ser inscritível. 40 PONTOS para o Brasil!

O jogo termina com a vitória da seleção brasileira pelo placar mínimo de 1 a 0. Enquanto os jogadores e a torcida comemoram, nossos estudantes ainda estão na metade da prova. Alex e Larissa descobrem, finalmente, como construir um número ensolarado com pelo menos 10 elevado a 2002 fatores primos. Israel encontra a forma de escolher o máximo de números entre 1 e n sem que haja uma diferença igual a k. Rafael chega a uma conjectura e luta bravamente para demonstrá-la.

Muito tempo depois de os fogos da vitória futebolística terem cessado, nossos quatro campeões finalizam sua participação na XIII Olimpíada de Matemática do Cone Sul. O resultado: quatro medalhas e a maior pontuação entre os países participantes.

Enquanto isso, o Brasil continua comemorando e torcendo pelo futebol, praticamente alheio ao brilhante desempenho de seus jovens representantes.

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Curiosamente, acaba de ser realizada a XXI Olimpíada de Matemática do Cone Sul, novamente no Brasil (em Águas de São Pedro) e novamente durante a Copa do Mundo de Futebol, apesar de que desta vez nenhuma prova coincidiu com jogos do Brasil.

Participei este ano como um dos coordenadores do tribunal de correção da competição, que foi brilhantemente organizada por nossos colegas de São Paulo. Você encontra mais informações seguindo este link para o site oficial.

O fato de eu ter encontrado este texto, tão adequado para publicação neste Blog, justamente nesta época de Cone Sul e Copa do Mundo, 8 anos depois... é, para mim, mais um motivo para não acreditar em coincidências.

3 comentários:

  1. Professor, não sou aluno efetivo, mas o tratarei assim em respeito. Não importando o seguimento religioso, temos razões adiárias para não acreditarmos em "acaso" ou "coincidência". Meus parabéns pela postagem e que nossos medalhistas acadêmicos possam ter cada vez mais prestígios. Se bem que no País do futebol, "Zé batalha se trabalha".

    Abraços e fique bem

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  2. Luciano, já estava com saudades dos seus textos. Se bem que esse foi escrito há 8 anos.

    Não sei se comento sobre os campeões do futebol e os da matemática ou se sobre a inexistência do acaso.

    Mas vamos lá: eu até entendo porque os jogadores de futebol, ainda mais os campeões, ganhem tão mais dinheiro do que os campeões da matemática e de todas as ciências que ajudam, dia após dia, a mudar (quase sempre para melhor) o mundo em que vivemos.

    Eu entendo sim, mas não consigo aceitar.

    Mas como "o acaso não existe", talvez essa "injustiça" ainda seja preciso.

    PS: Sou apaixonado por futebol. Pra frente Brasil!

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  3. Eu ainda tenho esse texto na minha memória, desde 8 anos atrás! Fico feliz em vê-lo finalmente publicado!

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